BREVE GENEALOGIA DE UM FLÂNEUR-CRIMINOSO-POETA: UMA LEITURA DO CONTO “O COBRADOR”[1], DE RUBEM FONSECA
Fabíola Simão Padilha Trefzger - UFES
Tudo neste mundo transpira o crime, o jornal, as paredes e a face do homem.
Baudelaire
Em suas reflexões sobre a experiência moderna, povoada de emblemas alegóricos, Walter Benjamin destaca a figura do flâneur nas diversas feições em que comparece. A travessia desse andarilho, registrada pelo pensador alemão, permite-nos situá-lo, primeiramente, no disputado circuito das galerias parisienses, “meio-termo entre a rua e o interior da casa”, ambiente por onde circula na condição de observador atento da multidão que compõe a paisagem, instalado no conforto de seus relevos como se estivesse em sua própria casa.
O aspecto multifacetado da massa, com um elenco de tipos catalogados pelas fisiologias, fomentou, por seu turno, o surgimento do flâneur-detetive. Apesar dos esforços dos fisiologistas em manter afastadas as inquietações provocadas pelo “desconhecido”, editando um exaustivo repertório de tipos humanos, a asserção visionária de Goethe: “todo ser humano, tanto o mais elevado quanto o mais inferior, leva consigo um segredo que se conhecido o tornaria odioso a todos os outros”[2], indicia um fenômeno detectado nas incipientes metrópoles do século XIX: a emergência da rua como lugar ideal onde o criminoso encontra abrigo. A face obscura das cidades torna-se, dessa forma, um terreno profícuo para a literatura, inspirando e conspirando o engendramento dos romances policiais.
Nessa perspectiva, o célebre conto de E. A. Poe, “O homem das multidões”[3], figura na nova ótica da flânerie como uma autêntica “radiografia do romance policial”, nas palavras de Benjamin. A história é narrada em primeira pessoa por um indivíduo convalescente que, numa tarde de outono, resolve sentar-se num café londrino, disposto a observar o movimento das ruas através das vidraças.
De início, o olhar atento do narrador abarca a multidão em sua totalidade indiscernível. No entanto, logo abandona a perspectiva globalizante da massa e passa a concentrar-se nos seus aspectos particulares, descrevendo pormenorizadamente o amplo painel de categorias humanas que desfilam ante seu olhar arquivista. A minuciosa observação dos elementos que circunscrevem as espécies de indivíduos em categorias precisas, passíveis de identificação do ponto de vista sócio-econômico-cultural, é subitamente interrompida por uma fisionomia que lhe desperta a atenção, “por causa da absoluta peculiaridade de sua expressão”[4]. A impossibilidade de decodificar na face do “velho decrépito” o significado obscuro daquela “estranha existência” desencadeia no narrador uma irresistível vontade de seguir-lhe os passos a fim de desvendar-lhe a alma.
Durante dois dias ininterruptos o narrador segue o velho pelas ruas de Londres. A trajetória por este empreendida não aponta para nenhuma rota definida. Apenas vagueia a esmo, sem jamais dar-se conta de estar sendo seguido, buscando misturar-se ao rebotalho humano que, ao cair da madrugada, dirime seus passos e escasseia sua presença. Esfalfado de tanto caminhar no rastro do velho sem nada descobrir sobre o imperscrutável andarilho, o narrador desiste da perseguição e conclui:
– Este velho [...] é o tipo e o gênio do crime profundo. Recusa estar só. É o homem das multidões. Seria vão segui-lo, pois nada mais saberei dele, nem de seus atos.[5]
O mistério insondável do velho persiste, a despeito dos ingentes esforços do narrador, como um livro “que não se deixa ler”. O conto termina pondo em questão a própria legibilidade que permitiu ao narrador, inicialmente, no decorrer de sua demorada observação e análise da multidão, estimar o contingente humano em categorias estanques de indivíduos, segundo detalhes fisionômicos conjugados com particularidades de comportamento e indumentária.
No conto “O cobrador”, de Rubem Fonseca, é possível encontrarmos vestígios bastante legíveis das deambulações empreendidas pelo que chamamos de flâneur-criminoso-poeta. Mas é preciso, antes, tentar identificar que espécie de flâneur subsiste às portas deste novo século. Dito de outro modo, importa reconhecer a insurgência de um tipo especial de flâneur, no nosso caso o “cobrador”, que circula não mais na Paris do século XIX, mas percorre de forma renitente as artérias labirínticas de uma metrópole dos trópicos, o Rio de Janeiro, a um passo do século XXI.
Sabemos que o que precipita o ódio do narrador, movendo-o em direção às suas vítimas, é a reivindicação do enorme débito social a que julga ter direito. O ônus exigido inclui, entre outras coisas, “colégio, namorada, aparelho de som, respeito”[6] etc. Seus devedores possuem traços comuns: são de modo geral indivíduos bem-sucedidos, com certo destaque social, ou ainda com ocupações reconhecidamente promissoras no âmbito econômico-profissional. Figuram, entre eles, dentista, empresários, dondoca, muambeiro e políticos, que, no conjunto, respondem pela parcela de mercadoria de que foi privado - devedores a quem a fatura será apresentada. Com sarcasmo perverso o “cobrador” lê em suas vítimas “a despreocupação inconseqüente e perigosa em relação aos desníveis sociais”[7]. A recorrência da expressão “Só rindo”, remetendo diretamente à epígrafe que abre a coletânea, pontua o investimento criminoso do narrador, contribuindo para acentuar a dissonância entre a consciência deste, convicto de sua condição de espoliado, e o comportamento displicente dos que ignoram o débito a ser cobrado. É o que vemos logo nas primeiras linhas:
Abri a boca e disse que o meu dente de trás estava doendo muito. Ele olhou com um espelhinho e perguntou como é que eu tinha deixado os meus dentes ficarem naquele estado.
Só rindo. Esses caras são engraçados.[8]
Essa dissonância se agudiza no momento em que a conta é apresentada pelo dentista ao final do tratamento: “São quatrocentos cruzeiro”[9]. A recusa ao pagamento desencadeia o confronto entre o dentista e o narrador. Mas é o modo como este último lê a atitude do outro (“A raiz está podre, vê?, disse com pouco caso.”[10]) em contraposição a uma certa idéia que julga ter o dentista em relação ao aspecto aparentemente inofensivo do cobrador, o que intensifica a tensão resultante desse desajuste.
Ciente de seu status privilegiado, que invariavelmente afirma sua condição superior em relação ao miserável de dentes podres, o dentista do conto de Rubem é incapaz de ler no outro a fúria que se oculta pela diferença social que os separa. Por outro lado, o cobrador é dotado de maior capacidade de ação, pois antecipando o pensamento equivocado do dentista, que o julga pela sua fragilidade superficial, reage de forma inesperada, surpreendendo o desavisado adversário e beneficiando-se, assim, do próprio impacto causado pela reversão de forças em confronto:
Não tem quatrocentos cruzeiros. Fui andando em direção à porta.
Ele bloqueou a porta com o corpo. É melhor pagar, disse. Era um homem grande, mãos grandes e pulso forte de tanto arrancar os dentes dos fodidos. E meu físico franzino encoraja as pessoas. [...] Abri o blusão, tirei o 38, e perguntei com tanta raiva que uma gota de meu cuspe bateu na cara dele – que tal enfiar isso no teu cu? Ele ficou branco, recuou [...].[11]
Para além dos conhecimentos redutores dos fisiologistas, que supunham a “completa bonomia”, o cobrador reúne, no circuito apartado de sua consciência ressentida, um talento incomum para, no decurso de seu périplo, incógnito na multidão, empreender leituras da natureza humana e, desse modo, executar incólume suas vítimas. Ele não somente sabe identificar, em meio à massa, os indivíduos devedores que deverão ser “justiçados”, como também transita impunemente, livre de percalços, pondo em prática seus crimes com toda sua barbárie.
É o que acontece no instante em que observa o cortejo de “bacanas” dirigindo-se a uma festa na rua Vieira Souto. Com um facão atado à perna, dificultando-lhe os movimentos, ele fica à espreita, “entregue à sorte e ao azar”, enquanto seleciona aqueles que serão suas próximas vítimas. Durante o tempo em que aguarda o momento certo de atacar, aproveitando-se do olhar condicionado dos distraídos que vêem certas deficiências físicas como sinal de fragilidade, o cobrador finge ser um aleijado e, com isso, dissimula qualquer possibilidade de aparentar ameaça:
Ando lentamente de um lado para o outro da calçada, não quero despertar suspeitas e o facão por dentro da calça, amarrado na perna, não me deixa andar direito. Pareço um aleijado, me sinto um aleijado. Um casal de meia-idade passa por mim e me olha com pena; eu também sinto pena de mim, manco e sinto dor na perna.[12]
Ao precipitar-se em direção a um jovem casal, presa eleita para seu ritual macabro, na saída da festa, não encontra nenhuma resistência, nenhum obstáculo que pudesse impedir a abordagem. Facilitação proporcionada por mais um descompasso de leituras: de um lado, o cobrador, espécie de andarilho-criminoso, para quem a rua não oculta mistérios imperscrutáveis, mas, ao contrário, apresenta uma legibilidade aviltante; e, de outro, o insulamento do indivíduo urbano de que resulta a incapacidade de captar o mínimo elemento diferencial frente ao repertório estereotipado a que está habituado. No fragmento que se segue vemos a dimensão exata do ruído que se instala entre a leitura do cobrador e a perspectiva dissonante expressa nos patéticos argumentos do homem, na tentativa de livrar-se do falso aleijado:
Cheguei perto deles na hora em que o homem abria a porta do carro. Eu vinha mancando e ele apenas deu um olhar de avaliação rápido e viu um aleijado inofensivo de baixo preço.
Encostei o revólver nas costas dele.
Faça o que mando senão mato os dois, eu disse.
[...] Tirava o facão de dentro da perna quando ele disse, leva o dinheiro e o carro e deixa a gente aqui. [...] Só rindo. Ele já estava sóbrio e queria tomar um uisquinho enquanto dava queixa à polícia pelo telefone. Ah, certas pessoas pensam que a vida é uma festa [...].
Nós não lhe fizemos nada, ele disse.
Não fizeram? Só rindo. Senti o ódio inundando os meus ouvidos, minhas mãos, minha boca, meu corpo todo, um gosto de vinagre e lágrima.[13]
Ao longo do conto sobressai esse descompasso envolvendo forças antagônicas (tensão que envolve o cobrador e suas vítimas), embate que em última instância desemboca invariavelmente no crime. Contudo, diante de indivíduos que compartilham semelhante situação de “fodido”, o cobrador se reveste de uma outra persona, não mais o homem-fera, irascível, autor de crimes hediondos, mas o poeta “engajado”, porta-voz ele mesmo de sua subcondição humana, a cometer poemas com a mesma ferocidade com que executa suas vítimas.
Mesmo nesses casos, porém, quando em face de seus pares, predomina uma absoluta ausência de comunicabilidade, uma ingente dificuldade de aceder ao outro no esforço malogrado de se fazer entender, tematizando, reiteradamente, a “perda dos elos comunais”[14], nas palavras de Renato Cordeiro Gomes. Lembremo-nos do encontro do cobrador com a mulher que o apanha na rua. Ao recitar um de seus poemas, é interrompido pela mulher: “Ela corta perguntando se gosto de cinema. E o poema? Ela não entende.”[15]
O rompimento das relações erigidas sobre o vezo das experiências intercambiáveis reinscreve, peremptoriamente, o antigo mito da dispersão babélica, definitivamente gravado no corpo-texto das cidades. Na balbúrdia dos centros urbanos não há mais “sujeitos que falam a mesma língua”, mas uma infinidade de indivíduos que circulam como passageiros clandestinos numa cidade estrangeira. A metrópole babélica consigna, assim, o signo indelével da destruição sob o qual se espraiam suas ruínas, multiplicando seus escombros.
Afirmar que o cobrador é uma espécie de flâneur-criminoso, mais ainda, flâneur-criminoso-poeta, é estabelecer um intenso diálogo com uma galeria de tipos derivativos de uma literatura que situa as relações do indivíduo no universo caótico dos grandes centros urbanos.
Gestado a partir de uma longa filiação que inclui as mais diversas categorias de personagens cujo cenário é a metrópole efervescente, o flâneur transmuta-se em nuances variadas, atestadas desde Baudelaire e Poe, passando por João do Rio e Lima Barreto, até encontrar sua feição mais recente em Rubem Fonseca, desdobrada no conto “O cobrador”, surgindo como uma forma híbrida que cinge o andarilho e o criminoso.
Em sua versão decadente, anunciada por Poe no conto referido, o flâneur encontra-se “abandonado na multidão”, vagando entre a turba e as grandes lojas, perdido e subsumido na proliferação assombrosa do universo mercadológico. Assim o descreve Benjamin:
O flâneur é um abandonado na multidão. Com isso, partilha a situação da mercadoria. Não está consciente dessa situação particular, mas nem por isso ela age menos sobre ele. Penetra-o como um narcótico que o indeniza por muitas humilhações. A ebriedade a que se entrega o flâneur é a da mercadoria em torno da qual brame a corrente dos fregueses.[16]
O flâneur reifica-se, torna-se ele mesmo mercadoria. O anonimato que o protege e que, ao mesmo tempo, possibilita sua errância, o transforma igualmente em objeto: “o sujeito, que permanece anônimo, bem poderia ser a mercadoria”[17], diz Benjamin.
No conto de Fonseca, no entanto, o que se observa é uma reação violenta da parte desse flâneur, que, longe de sentir-se indenizado, sob os efeitos entorpecentes dos sedutores objetos expostos nas vitrines, cobra da multidão de fregueses, dos economicamente favorecidos, a parte que lhe cabe no imenso latifúndio mercatório.
Integra a lista de cobranças do narrador uma justaposição de elementos aparentemente díspares, enfeixando um repertório que compõe a categoria do fetiche, tais como: “comida, buceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes”[18] etc. Reivindicação incrementada na parceria que o narrador firma com Ana. O discurso da “cobradora” carreia o eco da fúria de seu companheiro, forma de espelhamento apontado no próprio palíndromo compreendido no nome “Ana”:
O mundo inteiro saberá quem é você, quem somos nós[...]. Véspera de Natal é um bom dia para essa gente pagar o que deve, diz Ana.[19]
Se o flâneur convalescente do conto de Poe, investido de um “calmo porém indagador interesse por todas as coisas”[20], é subitamente surpreendido por uma fisionomia cuja “estranha história” deseja conhecer, terminando por frustrar sua curiosidade após uma longa e inútil perseguição, pois acaba nada sabendo daquele misterioso indivíduo, “gênio do crime profundo”; o flâneur-criminoso da história de Rubem não persegue indivíduos de natureza insondável; pelo contrário, aqui, o flâneur é quem efetivamente encarna a ameaça que se dilui na massa disforme da multidão, “a essência de todos os crimes”[21], o conspirador que labuta em silêncio sob a máscara da fragilidade.
Ao flâneur-detetive empenhado em decifrar os mais intrincados crimes por meio da leitura atenta do malfeitor, sobrevém o flâneur-criminoso para quem a observação converte-se em quitação de dívidas, fatura a ser cobrada em sonoros pufs, pufs. “Vê se não abre mais a porta pro bombeiro”[22], adverte o cobrador. A próxima vítima pode ser você.
Referências Bibliográficas:
BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas v. III: Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. Trad. José Carlos Martins Barbosa e Hemerson Alves Baptista. São Paulo: Brasiliense, 1995.
BENRADT, Beatriz Regina. Perseguindo o narrador (uma leitura de Rubem Fonseca). Dissertação de Mestrado. São Paulo: USP, 1985.
FONSECA, Rubem. O cobrador. In: O cobrador. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 11-29.
GOMES, Renato Cordeiro. Todas as cidades, a cidade. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
POE, Edgar Allan. O homem das multidões. In: Ficção completa, poesia e ensaios. Trad. Oscar Mendes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997.
[1] Rubem FONSECA. O cobrador. In: O cobrador. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 11-29.
[2]GOETHE apud Walter BENJAMIN. Obras escolhidas v. III: Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. Trad. José Carlos M. Barbosa e Hemerson Alves Baptista. São Paulo: Brasiliense, 1995, p. 36.
[3] Edgar Allan POE. O homem das multidões. In: Ficção completa, poesia e ensaios.Trad. Oscar Mendes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997, p. 392-400.
[4] POE, 1997, p. 395.
[5] Ibid., p. 400.
[6] FONSECA, 1999, p. 16.
[7] Beatriz Regina BENRADT. Perseguindo o narrador (Uma leitura de Rubem Fonseca). Dissertação de Mestrado. São Paulo: USP, 1985, p. 75.
[8] FONSECA, 1999, p. 13.
[9] Ibid., loc. cit.
[10] Ibid., loc. cit.
[11] FONSECA, 1999, p. 13-14.
[12] FONSECA, 1999, p. 18.
[13] Ibid., p. 20.
[14] Renato Cordeiro GOMES. Todas as cidades, a cidade. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, p. 68.
[15] FONSECA, 1999, p. 17.
[16] BENJAMIN, 1995, p. 51-52.
[17] Ibid., p. 53.
[18] FONSECA, 1999, p. 14.
[19] Ibid., p. 28.
[20] POE, 1997, p. 392.
[21] Ibid., loc. cit.
[22] FONSECA, 1999, p. 22.